terça-feira, 20 de outubro de 2009
Descolei do tempo
-Tudo bem. E você?
-Tudo bem também. Tá sumido, hein!
-Que isso! Nos vimos outro dia...
-Outro dia? Isso foi há três semanas atrás!
-Sério?
-Sério.
-Caraca!
-E o que você tem feito nesse tempo todo? Quais são as novidades?
-Cara, não fiz nada... Não tem nada de novo.
-É?
-É! Nem sabia que tinha passado tanto tempo assim. Nossa...
-Você parece assustado. O que aconteceu?
-Sei lá! Estou meio bolado com isso de passar esse tempo todo e eu não perceber e nem saber o que eu fiz.
-Sinistro!
-É sério! Me sinto como se eu tivesse descolado do tempo. Como se estivéssemos todos num carrossel e eu tivesse saído dele por um tempo e tivesse apenas vendo ele girar com todo mundo dentro e eu a parte, esperando para subir de volta sem fazer nada.
-Caraca...
-Preciso voltar ao tempo, voltar pro carrossel, montar meu cavalo e seguir com a minha vida. Não dá pra ficar só olhando ele girar.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Caso de puliça
-Seu Dotô, esse fiodapú tava mi bulinanu!
-Mas seu Dotô...
-Cala a boca, ô meliante! O cabo, dá um tapa nesse desgraçado cada vez que ele falar alguma coisa.
-Issu mêrmu seu Dotô! Acaba com ele! Safado!
-A senhora também trate-se de se acalmar-se. Agora me conta o ocorrido da ação maliciosa.
-Hein?
-O que aconteceu?
-Esse safadu fiodeumaégua fica mi bulunanu o tempo todo. Sempre que nós si vê ele mi bulina.
-O meliante abusa sexualmente da senhora, então?
-É issu aí! Ele fica passanu as mão nos meus peito i na minha bunda o tempo todo.
-Mas seu Dotô, não é bem assim... Ai!
-Cala a tua boca, ô marginal. Continue, senhora.
-Se Dotô, eu levu uma vida honesta, sô trabalhadora i temente a Deus. Sô mulé direita, não sô mulé di ficar de isfrega o tempo todo, não sinhô.
-Certo, a senhora é uma cidadã de boa índole.
-Não, eu sô uma mulé di família! Não sô isso aí que o seu Dotô falou não. Sô direita i limpinha.
-Certo, continue.
-Esse desgramado vive me encoxando pelos cantos, querenu abusar do meu corpo.
-E a senhora não quer? É contra a sua vontade?
-Também não é assim, né, seu Dotô. Ninguém é di ferro i a carne é fraca. Às vêiz eu deixo, mas só um poquinho.
-A senhora permite que o acusado se divirta às suas custas?
-Sim, sinhô, seu Dotô. Umas safadeza di vêiz enquanu até que é bom, né? Mas ele quer o tempo todo, não tenho discansu.
-Mas como a senhora permite que este estuprador comprovado viole a sua integridade física esporadicamente?
-Ó, não tindi o que u sinhô falô aí, não. Mas ele num é istrupador, não sinhô. É meu marido. Ele é um safado dos infernos e vai quemá com o capeta, mas é meu marido.
-E o que a senhora deseja que nós procedamos em relação ao caso aqui resistrado?
-Quero qui o sinhô ixplica pá ele que num pode mi currar o tempo todo i tem que arrumá um emprego. Pra ele dexá de ser safado e ir trabalhar.
-Mas, seu Dotô, si nóis num pode buliná nem as própria mulé, quem que as gentes vai buliná? Ai!
sábado, 14 de março de 2009
Explicando
Estão em ordem cronológica descendente, ou seja, o último é o mais recente.
Um Final
Um último esforço e o findo ar escapa deixando apenas o vazio da inexistência. A filha levanta e abraça o pai, com seu rosto enfiado no peito dele. O marido abraça de volta e imerge sua face nos volumosos cabelos da filha. Os dois escondem seus olhos pois a realidade é horrenda demais para um mero vislumbre.
E ninguém vê. Ninguém percebe. O momento em que ela levanta-se com seu tórax inerte. Ela olha para os dois e uma única lágrima escorre. A seguir ri. Olha para a janela e começa a refletir e calcular. Se a menor força, empurra a cama com o dossel para o outro lado do quarto. Levanta os dois abraçados como se fossem pluma e os deposita carinhosamente fora do caminho.
Ela dirige-se então ao corredor e anda até o fundo. Vira-se de volta ao quarto e toma posição. Então parte. Correndo, segue toda a extensão do corredor, entra no quarto, passa pela cama e, no último instante antes de atravessar a janela, olha os dois abraçados.
E então seus pés descolam-se do chão – e da realidade. Pelo menos desta; das outras já não se sabe...
Publicado originalmente em 09/08/2008, aqui.
Era uma vez...
Era uma vez uma menina. Ele andava na rua sempre olhando pra frente e tendo muito cuidado para não bater em postes e placas e para não deixar desapercebidos seus amigos. Mas ela vivia caindo em buracos e pisando em merda de cachorro. Seus amigos viviam reclamando que ela chegava sempre suja ou machucada aos lugares.
Era uma vez um menino que conheceu uma menina. Ele andava na rua sempre olhando pra baixo. Ela vivia olhando pra frente. Um dia, ele estava amarrando o sapato e ela esbarrou nele. Assim se conheceram. Eles nunca mais bateram em postes e placas ou caíram em buracos ou pisaram em merdas de cachorros.
Publicado originalmente em 31/07/08, aqui.
Um minuto
O pior é que é sempre assim. Trabalhar é repetir várias vezes algumas poucas tarefas ao longo do mês. Cada dia uma tarefa diferente, o dia inteiro a mesma tarefa. E só se leva um minuto pra cada uma. Saco.
- Ei!
- Hã?
- O que você ta fazendo?
- Como assim?
- O que você ta fazendo?
- Estou trabalhando.
- Eu imaginei. O que pergunto é: você está realizando alguma tarefa diferente da que você acabou de fazer?
- Não...
- A próxima será diferente da que você faz agora?
- Também não.
- Comigo é o mesmo.
- Sim. E daí?
- Você não fica com a impressão de que o dia se repete em um minuto.
- Hã?
- Seu dia inteiro se resume a um mesmo minuto de trabalho repetido diversas vezes ao longo do dia.
- Cara, boiei.
- Sim, sim. Você vive o mesmo minuto do dia o dia inteiro.
- Putz, o que você tomou hoje?
- É sério...
- Vamos almoçar?
Saco! Almoçar é a coisa mais diferente e divertida para se fazer no dia. Há sempre uma comida diferente, no entanto é sempre a mesma. Sempre uma salada. Sempre dois pratos quentes. Sempre arroz e feijão. Sempre os mesmos temperos. Sempre o mesmo gosto. Todo dia uma comida diferente; todo dia se come o mesmo.
- E então? Pensou no que eu falei?
- No quê?
- Sobre o trabalho...
- Nem entendi o que você falou!
- Caralho.
- Quê?
- Nada, deixa pra lá...
Escovar os dentes. Esfrega os de cima. Esfrega os de baixo. Esfrega os da esquerda; os da direita. Esfrega a língua. Cospe. Igual a ontem.
- Viu o jogo?
- Não. Esqueci. Como foi?
- O de sempre. A defesa é muito fraca! Falta atacante decente. É foda!
- É foda...
Essa cadeira vive desregulada. Bom, basta ajeitar direitinho. Pronto. Monitor na altura certa. Teclado e mouse nos lugares ideais. Agora é só trabalhar. O que estava fazendo mesmo?
Acho que já fiz isso hoje.
Publicado originalmente em 27/07/2008, aqui.
TRÊS VEZES CINEMA
1. Cinema vs. Filmes
Mais uma vez vou assistir àquele filme. Já o vi várias vezes na TV e tenho até DVD em casa.
É bem verdade que eu nunca assisti ao DVD. Mas eu o tenho. Enfim...
Quando anunciou passando num cinema não pude resistir. Eu o acho fantástico e o cinema só o tornará mais incrível para mim. Vai agigantá-lo.
Adoro essa sala de cinema. Das antigas, com palco, mezanino, enorme e toda decorada com aqueles rococós bregas de antigamente. O charme está nos detalhes: a cortina de veludo, a cadeira almofadada e a música clássica antes da sessão.
O ingresso a preço popular só faz a festa mais interessante. Quero pessoas animadas ao meu lado, quero torcida, quero “AHHHHHs” e “OHHHHHs”, quero vaias e aplausos. Anseio pela platéia que interage com o filme, mescla-se com a exibição e torna-se uno com a experiência cinematográfica.
O público, ansioso com o início da projeção, começa a ritmar o “Co-me-ça! Co-me-ça” e os últimos assentos são preenchidos.
Shhh! A sessão já vai começar...
2. Cinema-realidade
Aconteceu no meio do filme. Três fileiras à minha frente, duas colunas à esquerda.
A cena era de um casal – ele com seus idos 40 anos e ela com uns 30 – beijando-se em meio a todos.
De súbito, alguém lá na frente levanta-se e dirige-se a eles. Não sei se notam sua aproximação – não ficou muito claro.
Eu não estava entendendo muito bem o que acontecia. Não tinha dado crédito algum ao casal e muito menos a quem se aproximava.
Só sei que do nada dois estampidos altos ensurdeceram a todos. Quando os ouvidos voltaram ao normal, ouve-se um grito rouco e constante, quase um canto gregoriano com sua falta de variação tonal.
Outro estampido, mais surdez. Podia ser mais baixo o som. Mas, também, quem manda ficar tão perto da ação, né?
Neste momento todo o cinema ficou em silêncio, todo par de olhos grudados no acontecimento. Ninguém ousava respirar ou olhar pro lado. De repente, um barulho de pipoca mastigada. O filme continuava e ninguém queria perder um segundo sequer.
Sem trilha sonora ou efeitos sonoros, o sossego da sessão chega ao fim. Chegam os jornalistas e seus flashes. Depois os policiais e seus berros. O filme continua e ninguém quer perder a ação.
A trama, os personagens e a conclusão foram tão intensos que eu esqueci completamente o que fazia ali e que longa fui assistir. A realidade estava tão incrível que parecia até um filme.
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3. Nós Dois, Eles Dois
Lá estava eu brincando com o cigarro entre os dedos, do mindinho, girando até o polegar. A ansiedade subindo pela minha espinha batendo no centro da testa e descendo até a ponta dos meus dedos.
Nisso que dá ir ao cinema sozinho. Odeio ir sozinho. Acho muito deprimente, essa situação. Casais abraçados, amigos comentando suas expectativas, filhos excitados enchendo seus pais de perguntas e eu, só na fila, meio que inclinado pro lado com a falta do apoio de uma companhia.
E o cigarro. Eu tinha parado com ele, mas a ansiedade traz tudo de volta. É só tirá-lo do maço que ele se mescla aos meus dedos como se sempre estivesse ali, apenas um dedo a mais. Tamborilando, de uma ponta à outra da mão.
Sentado, só me resta esperar o início da sessão, sem alguém para conversar. As pessoas passam e perguntam “tem alguém aqui?” “não, pode sentar-se”. Estou sozinho. Eu e meu cigarro.
O casal à frente parece o mais grudento que já vi. Ficam segredando um no ouvido do outro sussurros que não compreendo mas que ferem minha solidão com seu carinho mútuo.
Durante toda a exibição, a língua dele sibilou no lóbulo dela, como se precisasse ter sua atenção a todo momento. Como se o filme estivesse atrapalhando a união deles.
Comecei a achar minha solitária condição em melhor situação que a dela.
Na saída, tentei juntar-me aos dois e ouvir o que aquele chato, que não desgrudava dela por um segundo, tanto tinha a confidenciar em seu ouvido. Ele, agarrado a ela, parecia um concha protegendo sua pérola a todo custo.
Mas, ao chegar à rua sinto-me arrependido e humilhado. Ela retira sua vara e põe seus óculos escuros. E ele a guia para o estacionamento perto. Com o mesmo carinho com que ele narrou o filme que eu tinha tido a oportunidade de assistir, mas perdi tempo invejando os dois.
Eu e meu cigarro.
Publicados originalmente em 28/05/2008, aqui.

